Há tempos atrás me tornei ateísta. Penso que seja a última etapa de uma progressão que começou há muito tempo atrás. Busquei vários cultos religiosos (talvez necessidade de participar de algum grupo social, sei lá). Em todos eu me decepcionei. Todos consultavam médicos, psicólogos, alguns tomavam remédios contra depressão, outros batiam nos conjuges, muitos traiam, a maioria se desesperava. O conforto espiritual durava, no máximo, alguns minutos após o fim do culto.
Me lembro que a descoberta do pensamento cético pra mim veio ao ler o site do Projeto Ochkam há alguns anos (obrigado!). Na verdade mesmo quando ainda admitia a hipótese de deus (ou deuses), já discordava em certos pontos dos dogmas inflexíveis que conhecia, mas acreditava na existência de alguma chave hermética que abriria o conhecimento pra mim.
Quando vi que outras pessoas questionavam as escrituras cristãs, me interessei pelo assunto. Não eram estudiosos em sua maioria. Eram teístas, céticos, ateístas e simpatizantes agnósticos, que discutiam e tentavam entender porque livros supostamente inspirados por deuses (mais evoluídos portanto) eram tão desnecessariamente complexos e contraditórios. A conclusão a que chegavam após um exame (sincero) da “hipótese deus” era que ela é improvável e desnecessária.
Lendo textos sobre pseudo-ciência, sobre o método científico, conversando e conhecendo muitos pontos de vista, inclusive dos teístas, é que construí as bases do meu ateísmo. Foi uma caminhada dura, afinal ser ateu em uma sociedade em que a ignorância é uma bênção e o conhecimento é associado à soberba é muito difícil. É preciso ter coragem pra não participar dos cultos no local de trabalho e recusar folhetos, orações… mas isso não justifica a postura de alguns ateus que se colocam como heróis da descrença. Me parece a mesma choradeira dos cristãos, que usam a perseguição para se legitimarem como mártires do mundo.
Outro assunto digno de comentar aqui é que não existe uma religião ateísta. Não existe um movimento homogêneo, não existem crenças compartilhadas ou dogmas. Não existe um roteiro para se tornar ateu. Não existe uma classificação para os ateístas. Ateísmo não é uma religião. Carl Sagan era ateísta e no entanto admitia a hipótese de vida em outros planetas (apesar de não dar crédito ao fenômeno U.F.O.). Qualquer tentativa de nos classificar é reduzir o ateísmo a mais um movimento dogmático. De comum, só temos o fato de não acreditarmos em deuses. Ateísmo não é o mesmo que ceticismo embora um não exclua o outro. Um cético necessita de provas e fatos para aceitar algo como verdade. Alguém pode ser ateísta e ainda assim aceitar a homeopatia ou os UFOS. É preciso cuidado com as generalizações.
Escrevi esse post pra desabafar mesmo. Não sou o mais preparado pra falar em ateísmo, existem sites ótimos como os que estão nos links recomendados que podem contribuir muito mais para o entendimento do assunto. É que pelo que tenho visto nos fóruns da vida por aí, parece que existe uma guerra entre duas fações rivais, os ateus e os crédulos.
Me livrar dos dogmas e retornar ao estado inicial de ser pensante foi um processo longo e muito particular. Embora tenha recebido contribuições valiosas, aprendido muito com as críticas e afiado minha argumentação nos encontros ocasionais com as ovelhinhas, foi uma caminhada solitária e muito difícil.
Não vou fazer proselitismo aqui, mas devo dizer que melhorei muito depois que me tornei ateu. Ajudo sem esperar nada em troca, vivo intensamente porque sei que a vida é frágil e única. Assumo a responsabilidade pelos meus atos, deixei de ser covarde. Fico triste mas não me sinto punido toda vez que algo dá errado. Abandonei o velho conflito entre carne e espírito. Dou valor ao dinheiro porque é fruto do meu trabalho e me proporciona satisfação e prazer. Enfim, me tornei humano.
Obrigado por ter lido até aqui. O texto representa uma opinião muito pessoal minha, parcial e embasada unicamente na minha experiência e observação
Abraços!
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